Ela se sentia bem ali, era uma escritora e apesar de
detestar clichês e evitá-los ao máximo nos seus textos, admitia ser o clichê
mais clichê do mundo.
Passava mais tempo ali do que em casa. Saia do trabalho e ia
direto pra lá, só saindo no momento em que o garçom a expulsava a ponta pés
do local. Era assim todos os dias, de segunda a segunda.
Entrava, cumprimentava o barman, pedia café, às vezes vodca,
dependendo do estresse do dia, e subia a escada, sentava num lugar que desse pra observar todo o café.
E era ali que o via todo dia. Ele não era bonito, nem
másculo, não era nada na verdade. Era bem comum se fosse olhar bem. Mas ele
usava um all star vermelho e isso era o bastante pra saber que era gente boa.
Criminosos não usam all star vermelho, no máximo um branco,
mas nunca um vermelho.
Na verdade seus pés é que eram boa gente, o resto, bom, o
resto ela imaginava que era.
Até o dia em que ele apareceu de tênis de academia , surrado
e sujo.
Desde aquele dia ela nem sequer olhara mais pra ele. Poderiam existir desculpas e motivos pra tal desleixo, mas ela nem sequer queria saber.
Homens, sempre assim.