quarta-feira, 19 de setembro de 2012


Ela se sentia bem ali, era uma escritora e apesar de detestar clichês e evitá-los ao máximo nos seus textos, admitia ser o clichê mais clichê do mundo.

Passava mais tempo ali do que em casa. Saia do trabalho e ia direto pra lá, só saindo no momento em que o garçom a expulsava a ponta pés do local. Era assim todos os dias, de segunda a segunda.

Entrava, cumprimentava o barman, pedia café, às vezes vodca, dependendo do estresse do dia, e subia a escada, sentava  num lugar que desse pra observar todo o café.

E era ali que o via todo dia. Ele não era bonito, nem másculo, não era nada na verdade. Era bem comum se fosse olhar bem. Mas ele usava um all star vermelho e isso era o bastante pra saber que era gente boa.

Criminosos não usam all star vermelho, no máximo um branco, mas nunca um vermelho.

Na verdade seus pés é que eram boa gente, o resto, bom, o resto ela imaginava que era.

Até o dia em que ele apareceu de tênis de academia , surrado e sujo.

Desde aquele dia ela nem sequer olhara mais pra ele. Poderiam existir desculpas e motivos pra tal desleixo, mas ela nem sequer queria saber.
Homens, sempre assim.

terça-feira, 18 de setembro de 2012


Café pela metade, pia trasbordando louça, pó nos móveis e mais um monte de coisas pra fazer.

É celular que resolve não enviar sms, internet que fica lenta, televisão que enlouquece.

É ônibus lotado, ruas lotadas, cabeça lotada, casa lotada.

Da pra sentir na rua o estresse emanando, o desespero, a preocupação.

É trabalho que não vem, resultado que demora, objetivos que parecem fugir como areia por entre os dedos.

É violência na rua, na mente das pessoas.

É desgraça 24 horas na televisão e 48 de tristeza.

São amores que se acabam e muitos que nem começam.

É a população que transborda medo e passividade.

Ídolos errados, crianças perdidas pela vida. Adultos perdidos pela vida.

É cabelo caindo, pele seca, mãos geladas, pés gelados, tudo gelado.

Menos o coração dela. Menos o sorriso dela. Menos o corpo dela.

sábado, 1 de setembro de 2012


Ela entrou no bar pisando forte, cheirava a encrenca. Não que os homens ali se importassem, era só uma constatação.

Cabelos cortados no ombro, lisos e pretos. De franja e olhos marcados. Cintura fina, salto alto. Calças coladas, quase que pintadas no corpo, talvez fosse, no fim.

Blusa no mesmo estilo da calça.

Passava pelas mesas decidida, pisando no coração dos homens que se apaixonavam instantaneamente pela propaganda ambulante de sexo que era ela.

Por Deus, que encrenca.

Dirigiu-se ao bar, pediu vodca com gelo e cruzou as pernas, levando com esse movimento metade da sanidade do bar.

Amigos se desafiavam a chegar, apostavam o carro que nenhum conseguiria sequer uma olhadela. Apostavam o salário. Apostavam as próprias mulheres.

Ela sentada no bar, parecia completamente alheia a guerra que se travava pela sua atenção.

Pediu mais vodca. Retirou da bolsa o celular, escreveu algo e largou no balcão.

Tom cantaria seu poder de hipnose.

Checou mais uma vez o celular. Pareceu mais satisfeita dessa vez.

Então algo chamou sua atenção na porta do bar. Uma loira estonteante, corpo desenhado por Deus, rosto angelical.

Cabelos alvíssimos, olhos azuis. Vinícius se ajoelharia a seus pés e faria dela sua musa.

A morena abriu um sorriso enorme, com os dentes mais brancos que a humanidade já havia visto. Deu um último gole na vodca, dirigiu-se decidida até a loira, e, deu-lhe um beijo digno de cinema.

Pegou sua mão com decisão e saíram as duas a destruir corações e esperanças pelo Bom Fim.

Foi neste dia que os homens perderam a fé no mundo.