quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Saião e blusa colada. 
Pés nus e nenhum esmalte nas unhas.
Caminhava pela praia, com o sol a pino, a brisa despenteando seus cabelos castanhos, a areia arranhando seus pés e o cheiro de mar impregnando sua alma.
Precisava recarregar as baterias, sentir que estava viva.
Andava e pensava em tudo que tinha lhe acontecido.
Doeu, mas nesse caso a dor era bem vinda.
Chorou, mas agora estava vazia.
Correu até suas pernas arderem.
Ficou com raiva, quebrou pratos, manchou tapetes de vinho, fumou desesperadamente.
Mas, no fim, tinha de agradecê-lo, quem sabe enviando um e-mail. 
Foi um corte rápido e preciso.
Deu de ombros. 
Passou.
O riso surgia de dentro dela com facilidade agora, depois de tantas lágrimas derrubadas.
Seu sorriso era fácil e sincero e talvez tenha sido isso que ele tenha lhe ensinado no fim das contas, no todo da dor.A sorrir apesar das adversidades, apesar de quem lhe machuque.
O fato de ter doido não soterrava  o fato de que agora ela era feliz consigo mesma.
Era ela novamente.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


Ela se sentia bem ali, era uma escritora e apesar de detestar clichês e evitá-los ao máximo nos seus textos, admitia ser o clichê mais clichê do mundo.

Passava mais tempo ali do que em casa. Saia do trabalho e ia direto pra lá, só saindo no momento em que o garçom a expulsava a ponta pés do local. Era assim todos os dias, de segunda a segunda.

Entrava, cumprimentava o barman, pedia café, às vezes vodca, dependendo do estresse do dia, e subia a escada, sentava  num lugar que desse pra observar todo o café.

E era ali que o via todo dia. Ele não era bonito, nem másculo, não era nada na verdade. Era bem comum se fosse olhar bem. Mas ele usava um all star vermelho e isso era o bastante pra saber que era gente boa.

Criminosos não usam all star vermelho, no máximo um branco, mas nunca um vermelho.

Na verdade seus pés é que eram boa gente, o resto, bom, o resto ela imaginava que era.

Até o dia em que ele apareceu de tênis de academia , surrado e sujo.

Desde aquele dia ela nem sequer olhara mais pra ele. Poderiam existir desculpas e motivos pra tal desleixo, mas ela nem sequer queria saber.
Homens, sempre assim.

terça-feira, 18 de setembro de 2012


Café pela metade, pia trasbordando louça, pó nos móveis e mais um monte de coisas pra fazer.

É celular que resolve não enviar sms, internet que fica lenta, televisão que enlouquece.

É ônibus lotado, ruas lotadas, cabeça lotada, casa lotada.

Da pra sentir na rua o estresse emanando, o desespero, a preocupação.

É trabalho que não vem, resultado que demora, objetivos que parecem fugir como areia por entre os dedos.

É violência na rua, na mente das pessoas.

É desgraça 24 horas na televisão e 48 de tristeza.

São amores que se acabam e muitos que nem começam.

É a população que transborda medo e passividade.

Ídolos errados, crianças perdidas pela vida. Adultos perdidos pela vida.

É cabelo caindo, pele seca, mãos geladas, pés gelados, tudo gelado.

Menos o coração dela. Menos o sorriso dela. Menos o corpo dela.

sábado, 1 de setembro de 2012


Ela entrou no bar pisando forte, cheirava a encrenca. Não que os homens ali se importassem, era só uma constatação.

Cabelos cortados no ombro, lisos e pretos. De franja e olhos marcados. Cintura fina, salto alto. Calças coladas, quase que pintadas no corpo, talvez fosse, no fim.

Blusa no mesmo estilo da calça.

Passava pelas mesas decidida, pisando no coração dos homens que se apaixonavam instantaneamente pela propaganda ambulante de sexo que era ela.

Por Deus, que encrenca.

Dirigiu-se ao bar, pediu vodca com gelo e cruzou as pernas, levando com esse movimento metade da sanidade do bar.

Amigos se desafiavam a chegar, apostavam o carro que nenhum conseguiria sequer uma olhadela. Apostavam o salário. Apostavam as próprias mulheres.

Ela sentada no bar, parecia completamente alheia a guerra que se travava pela sua atenção.

Pediu mais vodca. Retirou da bolsa o celular, escreveu algo e largou no balcão.

Tom cantaria seu poder de hipnose.

Checou mais uma vez o celular. Pareceu mais satisfeita dessa vez.

Então algo chamou sua atenção na porta do bar. Uma loira estonteante, corpo desenhado por Deus, rosto angelical.

Cabelos alvíssimos, olhos azuis. Vinícius se ajoelharia a seus pés e faria dela sua musa.

A morena abriu um sorriso enorme, com os dentes mais brancos que a humanidade já havia visto. Deu um último gole na vodca, dirigiu-se decidida até a loira, e, deu-lhe um beijo digno de cinema.

Pegou sua mão com decisão e saíram as duas a destruir corações e esperanças pelo Bom Fim.

Foi neste dia que os homens perderam a fé no mundo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


Esse texto tem a benção e pré-leitura do grande Davi Coimbra. Gostem.
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Chegou em casa, largou as chaves na mesa de tampo de vidro e ouviu aquele barulho que ela tanto amava. De metal contra vidro.

Foi andando até o chuveiro, arrancando a roupa e jogando pelo caminho.

Saia, camisa, sapato, meia, lingerie.

Entrou embaixo do chuveiro e deixou a água quente correr pelo corpo e relaxar seus músculos.

Andava estressada. Muita cafeína no sangue e pouco amor na pele.

Corria o dia inteiro e final de semana descansava para correr a outra semana, num looping eterno.

Trabalho. Café. Trabalho. Café. Paracetamol 750. Prece a alguma divindade. Mais café. Mais trabalho. Estresse num e-mail. Café. Trabalho. Casa. Banho. Morrer na cama. Trabalho.

Saiu do banho, vestiu o roupão, encaminhou-se para a cozinha.

Xícara na mão, duas colheres de café, quatro de açúcar, leite, 2 minutos no micro-ondas. Pronto.

Seus cabelos molhados e penteados pra trás molhavam as costas do roupão.

Pegou seu café, encaminhou-se para a varanda, sentou na poltrona e colocou os pés pra cima.

Sentiu o vento frio beijando suas pernas nuas e úmidas.

Ficou por horas ali vendo a vida passar, como uma mera espectadora desse espetáculo, ouvindo os barulhos da cidade e sentindo o cheiro que a rua tinha.

Cheiro de vida.

Queria ter o despudor do Davi Coimbra pra escrever, pra detalhar. Queria a melancolia do Gabito Nunes pra emocionar. Queria ideias e metáforas brotando pela minha cabeça.

Pessoas que usam a criatividade para viver ou para fugir experimentam uma liberdade muito mais plena do que a assegurada pela Constituição. É uma liberdade maior, viaja-se para lugares onde ninguém pode te tocar, seja com gestos ou palavras. Viaja-se para lugares inimagináveis, sem dor, sem fome, sem nada se você quiser.

Quem cria tem na sua mente uma eterna tela branca e uma palheta com intermináveis cores. Ninguém é realmente livre até criar algo bom. Até escrever, pintar, desenhar, compor.

Não nasci sabendo escrever nem mesmo querendo ser escritora. Só nasci e talvez o choque de nascer é que tenha me feito assim. Talvez não.

Aprendi desde cedo que o papel aceita tudo, a sociedade não. Aprendi que nunca se é realmente livre, as pessoas fazem o trabalho de te censurar.

Muitas vezes, na maioria das vezes, o que escrevo não é sobre mim ou sobre o que sinto. As vezes simplesmente olho alguém na rua e penso numa história para ela ou no que ela deve estar sentindo, dependendo do que ela transparece.

A arte e até mesmo a ciência foram feitas para chocar e revolucionar, para esbofetear a sociedade e gritar:” Esse sou eu,me aceite ou me deixe em paz”.

É isso, me aceite ou me deixe criar em paz. Não estou te ferindo com as minhas palavras, não te machuco, não te insulto. Aprenda a apreciar o que é diferente e se isso for demais para sua pífia compreensão da vida, saia da frente e me dê passagem. Me deixe seguir meu caminho com meu sorriso débil nos lábios, rodopiando pela minha estrada de tijolos dourados particular.

 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sempre dá

Olhar nossa foto no meu celular trás aos meus lábios um sorriso e ao meu coração uma
espécie de tranquilidade.
Estamos nos encaixando novamente na vida um do outro, nos readaptando, nos reposicionando, espremendo, apertando pra ver se dá espaço.
Sempre dá.
Ainda teremos atrasos, abraços e beijos em meio a corridas para evitar atrasos e os dias em que nada mais importa.
Você se tornou a melhor parte do meu dias, a mais calma, a mais tranquila, a que eu espero.
Acordo e me arrumo de manhã porque quero te ver , não que não goste de ir trabalhar, mas apesar disso quero te ver.
Estou descobrindo faces suas que nem imaginava.
Estamos novamente nos conhecendo em cima de um conhecimento que já tínhamos.
Agora, meu bem, é torcer e fazer tudo dar certo.
Conversar muito e ficar quietos mais um tanto.
O silêncio em nós me conforta.